Narrativa de origem

Das Oficinas à Kasular

O Kasular nasceu muito antes de ter esse nome.

Bancada de oficina (imagem PLACEHOLDER)
Oficina

Minhas primeiras memórias relacionadas às oficinas vêm de muito longe.
Eram as Oficinas dos Irmãos Fernandes Marconcini, fábrica de carrinhos e charretes de propriedade do meu avô, Seo Dito Marconsini, e de seus irmãos, em Três Fronteiras, no extremo noroeste do estado de São Paulo.
Meu avô e meu tio Antonio Henrique (Tio Rick) executavam de todas as etapas da produção e reforma dos carrinhos e charretes: marcenaria, pintura, serralheria e tantos outros processos que faziam parte daquele universo.
Eu, meu irmão e meus primos passávamos as férias por ali. Entre brincadeiras, ferramentas, máquinas e pedaços de madeira, começava, sem que eu soubesse, um aprendizado que me acompanharia pela vida inteira: o encantamento de transformar uma ideia em alguma coisa feita pelas próprias mãos.
Esse primeiro estímulo também veio do meu pai, Mirtão, que tinha grande habilidade para a escultura em madeira e para a confecção de diversos objetos, especialmente em ipê, sua madeira favorita.
Tanto na casa do meu avô, em Três Fronteiras, quanto nas casas onde morei ao longo da vida, sempre tivemos ferramentas por perto e algum cantinho destinado ao fazer.

A oficina como parte da vida

Fui me encantando cada vez mais com as ferramentas, as máquinas e os processos que transformavam ideias em coisas concretas. Aos poucos, também fui percebendo a importância do processo criativo para o meu próprio equilíbrio.
Nas horas vagas, meu prazer era reformar móveis, consertar equipamentos, experimentar alguma coisa nova — muitas vezes curtindo um som enquanto trabalhava.
Na minha casa, tive então meu primeiro cantinho de oficina. Era tão pequeno que mal cabiam as ferramentas. Por sorte, a área da churrasqueira acabava funcionando como uma extensão daquele espaço: ali aconteciam montagens, pinturas e também ficavam armazenados os materiais maiores.

Foi nesse pequeno espaço que comecei a fazer reformas e alguns projetos de upcycling, reaproveitando materiais e dando novos usos às coisas.
Pouco a pouco, meus projetos começaram a ocupar a casa e a chamar a atenção dos amigos. A área da churrasqueira e a pequena oficina passaram a ser lugares frequentados pelas visitas, que sempre queriam saber o que eu estava fazendo.
Foi também nessa época que comecei minhas primeiras experiências na internet, com o blog Reformaria.
O blog acabou despertando interesse e, com ele, começaram a surgir novas oportunidades e trabalhos. Intensifiquei a produção e percebi que aquele pequeno espaço já não era suficiente.

Ampliando a oficina

A solução foi ampliar a oficina para uma área do próprio quintal. Ganhei alguns preciosos metros quadrados e comecei a experimentar novos materiais e processos, incluindo chapas de compensado e MDF.
Também ampliei minha presença digital, levando os conteúdos do blog para o site Reformaria Criativa.
A oficina foi se tornando, cada vez mais, o espaço que eu mais frequentava em casa. E também um dos lugares preferidos das visitas.
Era comum alguém chegar e perguntar:

"O que você está fazendo agora?"

Os trabalhos de reforma começaram a aparecer, mas algo além dos próprios serviços também despertava interesse: as técnicas, os processos, as ferramentas e, principalmente, a possibilidade de criar.
As trocas de experiências foram ficando cada vez mais ricas.

Do fazer ao experimentar

Ao longo desse caminho, fui também descobrindo novas formas de pensar e fazer.
Os conceitos de DIY — faça você mesmo —, e posteriormente da cultura maker e dos makerspaces, ampliaram minha maneira de enxergar uma oficina.
Novas ferramentas, materiais e tecnologias passaram a fazer parte desse universo e tornaram o ato de criar ainda mais estimulante.
A fabricação digital, os recursos de projeto, a CNC e tantas outras possibilidades não substituíram aquilo que aprendi nas primeiras oficinas. Pelo contrário: passaram a se somar às ferramentas tradicionais, abrindo novas possibilidades para transformar ideias em objetos, experimentar processos e aprender fazendo.
Foi assim que, aos poucos, a ideia de uma Oficina Criativa começou a tomar forma.
Não como um conceito definido desde o início, mas como algo que fui construindo ao longo do tempo, a partir das experiências, das ferramentas, das pessoas e da vontade de experimentar.
Comecei a perceber que uma oficina poderia ser muito mais do que um lugar para produzir ou consertar coisas.
Poderia ser um espaço para criar, aprender, compartilhar, experimentar e estar presente no processo.

Uma experiência que mudou minha maneira de pensar

Certa vez, uma cliente precisava de uma réplica de um pé de mesa torneado.
Até então, eu estava acostumado a produzir para as pessoas. Mas aquela situação foi diferente.
Ela demonstrou interesse em conhecer a oficina e, mais do que isso, em produzir ela mesma a peça no torno.
Aquilo me chamou muito a atenção.
Percebi que talvez o valor não estivesse apenas no objeto pronto. Havia algo especial na experiência de aprender uma técnica, utilizar uma ferramenta, experimentar um processo e sair dali tendo participado da criação.
Essa experiência ficou comigo.
E começou a mudar a maneira como eu imaginava uma oficina.

O terreno

Em 2010, troquei meu carro por um terreno em Morungaba.
A ideia inicial era morar em Morungaba e, se desse certo, construir ali o barracão onde pudesse finalmente instalar as oficinas dos meus sonhos.
Desde então, venho trabalhando nesse projeto.
O tempo passou, o terreno foi se transformando e o sonho também.
Hoje, esse lugar tem um quintal especial, uma paisagem que me inspira e um barracão que carrega muitas realizações, mas também muitas expectativas.
Um espaço para colocar a mão na massa.
Para experimentar.
Para aprender.
Para criar.
Para compartilhar.
E talvez, principalmente, para encontrar uma forma de estar mais presente e livre através do processo criativo.

O Kasular é, portanto, resultado de uma história que começou muito antes de existir esse nome.
Começou nas oficinas do meu avô.
Passou pelas mãos do meu pai.
Pelos pequenos cantos de oficina que construí em casa.
Pelos móveis reformados, pelos projetos, pelo upcycling, pelo blog, pelas ferramentas, pelas novas tecnologias e pela cultura maker.
Foi ganhando forma com as experiências e com as pessoas que cruzaram esse caminho.

E continua sendo construído.

Hoje, quero transformar tudo isso em algo que possa ser compartilhado.
Uma Oficina Criativa onde fazer, aprender, experimentar e criar possam se encontrar com a natureza, a gastronomia, o bem-estar e as experiências.
Um lugar para colocar as ideias em movimento.

Sejam bem-vindos ao Kasular.